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FREUD E A PSICANÁLISE

Sigmund Freud nasceu em Freiberg, na Morávia, em 1856, de família judaica. É filho do terceiro casamento de seu pai, que trabalhava no ramo de tecelagem. Aos 4 anos de idade, como os negócios do pai não iam bem, a família se transfere para Viena. Nessa cidade recebeu toda sua educação, ficando conhecido como o “Mestre de Viena”. O universo feminino em que viveu, com cinco irmãs, pode ter influenciado sua riquíssima e extensa obra, que tem a marca de sua neurose.
Destacou-se como aluno da escola secundária; estudioso, curioso, atento às preocupações humanas. Interessado em ciências naturais, prosseguiu estudos no campo da medicina. Em seus primeiros anos como pesquisador estuda as enguias (peixes), depois o sistema nervoso das lampreias.
Ingressou em Hospital Geral, e entre os vários departamentos, o de Psiquiatria, sob a orientação de Meynert, que ele conhecia desde os tempos da escola, o impressionou bastante. No entanto, naquela oportunidade, dedicou-se à fisiologia, à anatomia cerebral e, depois às doenças nervosas.
Em1878, conheceu o Dr Joseph Breuer, catorze anos mais velho, que se tornou seu amigo e incentivador, inspirando suas primeiras pesquisas no campo da Psicanálise. O Dr. Breuer pode ser aproximado à figura paterna, e, inclusive, o ajuda financeiramente em algumas situações. Foi uma grande e intensa amizade em sua vida, no entanto, seguem-se polêmicas e rompimento. Freud estava convencido de que deixaria sua marca na História; tinha autoconfiança em relação à sua carreira e ao peso de seu legado; era o único filho que tinha um quarto exclusivo para estudar. O ambiente familiar o auxiliou bastante a ter força para seguir avante em sua carreira quando suas idéias eram consideradas, no mínimo, polêmicas.
Em 1880, o Dr Breuer iniciou o tratamento com Berta Pappenteim, mais conhecida como Anna O, uma das pacientes mais famosas da Psicanálise, e utilizou algumas estratégias terapêuticas inovadoras, como a hipnose, (técnica terapêutica que faz com que o paciente se lembre e vá resgatando na memória algumas experiências passadas visando com isso o desaparecimento de alguns sintomas) para o tratamento da histeria, problema que afetava muitas mulheres naquela época; na maioria jovens que alimentavam sonhos que não haviam conseguido realizar por conta da rigidez moral da época.
Após dois anos de tratamento, Breuer abandona o caso de Anna O; não dá continuidade às suas pesquisas e Freud o faz, pois se interessava profundamente pela histeria com toda a riqueza de sintomas que apresentava ao final do século XIX. Freud partiu da clínica; das relações que se estabeleciam entre ele e os pacientes, para elaborar modelos interpretativos; teorizar. Esta foi uma contribuição importantíssima à ciência e ao campo da educação, pois o enfoque clínico tem sido utilizado no trabalho de capacitação de professores visando auxiliá-los na reflexão sobre suas práticas.
Em 1882, Freud conhece Martha Bernays, jovem que virá a ser sua esposa, em 1886.
Em 1885, segue para Salpêtrière, em Paris, na intenção de trabalhar com o neurologista Charcot. Consegue uma bolsa de estudos e faz um estágio sobre as diferentes manifestações da histeria e efeitos do tratamento hipnótico, com esse famoso e talentoso médico.
Fixou residência em Viena, em 1886, e teve acesso ao hipnotismo, instalando seu consultório, onde atende pacientes histéricas, ora aplicando a técnica da hipnose, cujo princípio fundamental é a sugestão, ora a da pressão, na qual pressiona a fronte do paciente. Após alguns exercícios, Freud passou a acreditar que para além da hipnose poderia haver certos processos mentais que não obstante, permaneciam escondidos da consciência humana. Utilizando a hipnose, fazia perguntas às pacientes sobre a origem de seus sintomas. Acrescentou, em colaboração com Breuer, que os sintomas têm significado e são resíduos ou reminiscências de situações emocionais, porém, na maioria das vezes, tais sintomas não provinham de uma única cena traumática, mas da soma de significativa quantidade de situações similares. Nessa época, troca correspondência com outro amigo importante, o Dr. Fliess, otorrino alemão com o qual se vincula emocionalmente e, no início, fala de algumas de suas primeiras hipóteses que têm a ver com sua experiência na clínica. A partir dessa correspondência, fundamentam-se os alicerces da teoria psicanalítica.
Em 1892, Freud abandona a técnica da hipnose e da pressão para deixar o paciente falar, pois leva em consideração que a pessoa/paciente pode aceitar ou não a sugestão. Surge, então, a técnica da associação livre, com a qual pedia para a paciente falar livremente tudo que lhe viesse à cabeça, sem censura, por mais estranho e absurdo que lhe parecesse. Diz que esse encadeamento leva à percepção de sobredeterminação. Mostra que não era necessário usar a hipnose para a paciente/histérica chegar ao estado que queria.
Em 1893, Freud formula a teoria da sedução, referindo-se aos efeitos dos valores e regras sociais rígidas impostas aos filhos da sociedade dessa época.
Publica, com Breuer, o texto "Sobre o mecanismo Psíquico dos Fenômenos Histéricos", nesse mesmo ano e, em 1895, "Estudos sobre a Histeria" onde são relatados vários casos, inclusive o de Anna O; fala-se em cura pela fala ou limpeza pela chaminé - método catártico. Passa a considerar a hipótese de que há uma questão sexual na histeria. A evolução foi além do domínio da histeria quando Freud observou que não era qualquer espécie de excitação emocional que estava por trás dos fenômenos da neurose, mas uma excitação de natureza sexual. Aqui ele toca em pontos polêmicos, propondo idéias que dão destaque ao estudo da vida sexual, referindo-se aos efeitos dos valores e regras sociais rígidas, impostos aos filhos da sociedade dessa época. Nesse mesmo ano, Freud analisa seu próprio sonho, que está relatado na sua obra “Interpretação dos Sonhos”, voltando para si mesmo o seu olhar de pesquisador. Para alguns estudiosos, esse é o momento inaugural da Psicanálise, pois a partir daí o sonho passa a ser fundamental na construção teórica e na clínica psicanalítica. Ainda nesse ano de 1895, nasce sua filha, Anna Freud, que se torna, também, psicanalista.
Em1896, Freud faz uma conferência na Universidade de Viena sobre a etiologia sexual da histeria, colocando a hipótese de que, em sua etiologia, a histeria traz a marca sexual. Isso produz enorme escândalo e dificulta a aceitação de Freud no meio acadêmico. É o estopim do rompimento com Breuer, que era conservador e estava inserido no grupo de cientistas. Freud se surpreende, pois achava que Breuer o apoiaria, o que colaboraria para a aceitação de sua tese.
Nesse mesmo ano de 1896, quando faz uma conferência, morre-lhe o pai, experiência das mais difíceis para o homem, após o que Freud passa a pensar no Édipo. Fazendo sua auto-análise, vai-se dando conta de que, como filho, alimentava pela mãe um amor incestuoso que só foi possível perceber após a morte do pai.
Freud tinha formação humanista muito forte; tinha uma produção intelectual intensa e por sua erudição consegue pensar em metáforas para as referidas explicações. Através da mitologia, da arqueologia, vai buscando vestígios do passado na história das pessoas; por exemplo, amor incestuoso mas inconsciente pela figura materna. Freud mostra que a sexualidade humana não se liga à genitalidade e que se organiza a partir de operações psíquicas. Propôs que as crianças já apresentam uma sexualidade muito diferente das outras espécies e que, na infância, não está comprometida ao órgão sexual, mas a sensações ligadas à sexualidade. Isso foi revolucionário para a época, quando se achava que a sexualidade ficava adormecida. A sexualidade humana tem basicamente uma questão que a torna diferente; é a questão da pulsão, pois nós não somos, tal como os animais, movidos por instinto, mas por pulsão, termo proposto por Freud para dar a idéia de algo que fica exatamente no limite entre o orgânico e o psíquico.
Aos poucos, Freud vai reformulando suas próprias concepções e desvendando segredos humanos. Em 1897, época do Édipo (experiência edípica de matar o próprio pai em sonho e a culpa pelo amor incestuoso), Freud pondera que fatos que fazem parte da fantasia são muito importantes na Psicanálise.
Abandona a teoria da sedução, dizendo não mais acreditar nos relatos de suas histéricas. Recorre à teoria da fantasia, segundo a qual os elementos relatados na construção da história de cada paciente não fazem parte da realidade, mas, mesmo não tendo sido experiências reais, a maneira como são relatadas tem um peso para produzir sintomas. Freud percebe que, no momento em que a pessoa fala, seja uma experiência empírica ou fantasiosa, o valor para o analista é o mesmo; a fantasia vai revelar, de alguma forma, como é difícil para essas pacientes assumir conscientemente seus discursos de que, ao contrário, elas é que procuram ser seduzidas. Se a primeira teoria causou tanto furor, a segunda foi menos polêmica, no entanto a comunidade científica continuou a não aceitá-lo.
Nessa época, escrevia cerca de duas a três cartas por dia para o Dr. Fliess, independentemente das respostas. Para Freud, eram momentos de muitas questões que não haviam sido pensadas antes, como: a questão do sonho; o que é um aparelho psíquico; como ele se organiza; como se estrutura. Extremamente inventivo, produtivo, Freud passava de doze a dezesseis horas diárias em seu gabinete, atendendo pacientes e dedicando-se a estudos, pesquisas, correspondência.
1900, ano da publicação do livro “A Interpretação dos Sonhos”, deixou marcas profundas na cultura ocidental e representa a revolução paradigmática produzida por Freud, tirando o homem do centro de sua própria consciência, da mesma forma que Copérnico tirou a terra do centro do universo, Darwin tirou o homem do centro da criação e Marx tirou o homem do centro de sua própria história, dizendo que o homem é o resultado dessa história. A noção de inconsciente configura a ruptura de Freud com a epistemologia hegemônica do século XX.
Para Freud, o sonho é revelador de como funciona o psiquismo humano e ele considera o sonho como a via régia para o inconsciente; é o guardião do sono; é uma formação do inconsciente que está diretamente relacionada ao desejo; é um regus (semelhante a uma carta enigmática). O sonho acaba sendo uma espécie de matéria-prima privilegiada na teoria freudiana, a partir da qual o grande mestre vai aprimorando suas lições. A interpretação dos sonhos é a via de acesso ao conhecimento do inconsciente, que produz suas formações: os sonhos, os lapsos, os atos falhos, os esquecimentos, os chistes, o sintoma. Por definição, o inconsciente é inapreensível e o que dele se pode apreender são suas formações.
Com aproximadamente cinqüenta anos de idade e fumante inveterado, Freud desenvolveu um câncer na mandíbula; fez várias operações e teve que colocar uma prótese. Seu médico fala que, em alguns momentos Freud pensou que tal câncer poderia estar ligado ao fato de ele falar sobre problemas de fundo psíquico, onde o que está em questão é o inconsciente; aquilo que não pode ser manifestado e que acaba interferindo no corpo. A psicossomática é mais ou menos contemporânea a essa época, embora Freud não se tenha dedicado exclusivamente a essa questão.
No desenvolvimento de sua teoria, abandonando o método catártico, Freud mostrou a ocorrência de uma situação específica, a transferencial; aprofundou o uso do método da associação livre e assinalou a ocorrência do recalque.Tal estudo levou-o a adotar o conceito do inconsciente, inicialmente compreendido como a consciência, da qual nada se conhecia. Para compreender a origem dos sintomas, Freud foi levado, cada vez mais, à história do paciente, chegando aos primeiros anos de vida, isto é, à infância. Dessa forma, descobre a sexualidade infantil, novidade que enfrentaria a barreira dos preconceitos humanos, despertando indignação e contestação. Seguiram à revelação da sexualidade infantil, o reconhecimento das fantasias, das teorias sexuais infantis, o desejo, as fases de evolução da libido, sonhos e um trabalho mais detalhado sobre o tratamento psicanalítico.
Freud dizia que no projeto da criação não foi contemplado o fato de o homem ser feliz. Os que mais sofrem são aqueles que querem a felicidade ferrenhamente. A infância não é feliz; é um período sofrido, segundo Freud porque se está no caminho da construção do aparelho psíquico e se entra no mundo do desejo, que é prazer e desprazer.
A essas alturas, a Psicanálise, cujo eixo central é a questão do inconsciente, junto com a sexualidade e a prática psicanalítica, gozava de interesse e credibilidade. Bleuler e seu assistente Jung, em Zurique, estavam adquirindo vivo interesse pela Psicanálise. Em 1908, publicaram o Anuário de Pesquisas Psicanalíticas e Psicopatológicas.
À época, o assunto ainda provocava uma série de controvérsias, e isto tornou o grupo de psicanalistas mais coeso. Em 1910, em Nuremberg, na Alemanha, constituíram-se, por proposta de Ferenczi, em uma Associação Psicanalítica Internacional, que sobrevive até os nossos dias, tendo como primeiro presidente Jung.
As observações sobre as neuroses de guerra colaboraram sobremaneira para o crescimento da credibilidade da psicanálise, bem como para torná-la mais popular e conhecida.
Freud denominou segunda fase o período a partir de 1907, tendo ele desempenhado papel de destaque na esfera do narcisismo, teoria das pulsões e da aplicação da psicanálise às psicoses. O Complexo de Édipo se revelava cada vez mais claramente como o núcleo das neuroses.
Desde que formulou a hipótese sobre a existência dos dois instintos (Eros e Thanatos) e desde que propôs a divisão da personalidade mental em um ego, um superego e um id (1923), os interesses de Freud voltaram-se para os problemas culturais e é ele próprio quem diz: "não prestei outras contribuições decisivas à psicanálise". Os processos encontrados nos textos seguintes que são "O mal estar na civilização" e o "Futuro de uma ilusão", são os mesmos, colocados novamente numa fase mais ampla.
O inventor da Psicanálise acredita que estes estudos despertaram uma simpatia mais forte por parte do público do que propriamente a Psicanálise, que foi muito combatida na época, apesar de terem se originado dela.
São de Freud as palavras "não pode haver mais dúvida alguma de que ela (a Psicanálise) continuará: comprovou sua capacidade de sobreviver e de desenvolver-se tanto como um ramo do conhecimento, quanto como um método terapêutico".
Nas “Cinco Lições de Psicanálise”, escreve: para o Psicanalista “não existe nada insignificante, arbitrário ou casual nas manifestações psíquicas. Antevê um motivo suficiente em toda parte onde, habitualmente, ninguém pensa nisso; está até disposto a aceitar causas múltiplas para o mesmo efeito, enquanto nossa necessidade causal, que supomos inata, se satisfaz plenamente com uma única causa psíquica.” (Obras Completas -1970- p. 36 – vol. XI).
Em 1938, fugindo do nazismo, Freud foi para Londres. Suas três irmãs, ao contrário, morreram no campo de concentração.
Apesar dos 83 anos de idade e da doença, Freud ainda trabalhava; atendia pacientes, mas sofria com muitas dores e sua filha, Anna, concedeu ao médico que o atendia permissão para que aplicasse dose excessiva de morfina. Assim morreu o inventor da Psicanálise, a 23 de setembro de 1939, aos 83 anos, em Londres, na casa onde hoje é um museu que conta com seu divã, parte de sua biblioteca, suas antiguidades, funcionando como guardiões da história da Psicanálise.
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