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Cenas assustadoras e compatíveis com as psicopatias.

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Estudo mostra que pessoas com desvio de caráter e comportamento problemático podem sofrer de "psicopatia comunitária".



Adolescentes rebeldes, maridos que não param no emprego, mulheres permanentemente endividadas, jovens que não conseguem concluir nenhum curso. Há 15 anos, o consultório do neurologista carioca Ricardo de Oliveira Souza era a última esperança de famílias às voltas com 'pessoas-problema'. O médico conta que seus diagnósticos iniciais eram depressão, transtorno bipolar ou distúrbio de déficit de atenção. 'Cheguei a dizer a uma mãe que o problema do filho dela era falta de limite', arrepende-se. Infelizmente, o veredicto de muitos desses casos é bem mais complexo e deverá causar polêmica - como todas as descobertas relacionadas ao cérebro - a partir do momento em que for apresentado à comunidade científica durante a conferência Neurologia da Violência e da Agressão, de 10 a 12 de junho, no Rio de Janeiro.

Oliveira vai compartilhar com colegas do mundo todo os resultados preliminares de seus estudos sobre o mapeamento das emoções no cérebro, realizado em parceria com o neurorradiologista Jorge Moll Neto. O trabalho é inédito e foi mostrado a ÉPOCA com exclusividade. Oliveira vai apresentar o conceito de 'psicopata comunitário', aquele indivíduo que pode não ser um serial killer, mas causa estrago por onde passa.

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'É gente que nunca foi presa, mas que tem muito em comum com os psicopatas mais perigosos, desde traços de comportamento até o funcionamento de circuitos cerebrais'. Podem estar nessa categoria tipos como o malandro golpista 171, o sujeito que não tem emprego e vive de rolo, aquele que cultiva amizades por interesse e descarta as pessoas depois de obter o que deseja, o sujeito que vive de explorar a tia velhinha, o executivo inescrupuloso que desfalca a firma. Este último, também conhecido como psicopata corporativo ou do colarinho-branco, será o tema da conferência, no Rio, de um dos maiores especialistas do mundo, o canadense Robert Hare.

Comportamentos que parecem falhas morais podem ser doença

Pouco depois de receber os pacientes-problema em consultório, Oliveira começou a dar atendimento psiquiátrico no Instituto Philippe Pinel e pôde acompanhar de perto psicopatas clássicos, aqueles que violam repetidamente os direitos alheios, sem remorso. Em casos extremos, matam a sangue-frio, com requintes de crueldade, sem medo nem arrependimento. 'Comparei com meus pacientes e vi que existia uma semelhança', conta. Para tirar a prova, Oliveira aplicou o teste de verificação de psicopatia (PCL) elaborado por Hare, e utilizado pelo FBI para diagnosticar serial killers.

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Constatou que muitos frequentadores de seu consultório preenchiam vários quesitos do teste, até então utilizado quase unicamente em criminosos. 'Percebi que aquelas pessoas-problema também eram psicopatas. Não faziam picadinho de ninguém, mas agiam de maneira agressiva, sem moral, como parasitas, prejudicando muita gente.'

Nos últimos cinco anos, Oliveira e Moll avançaram nesse mapeamento. Os dois classificaram os principais tipos de agressividade encontrados em 279 pessoas com distúrbios neuropsiquiátricos. Por meio de um teste desenvolvido por Moll, batizado de Bateria de Emoções Morais (BEM), e com a tecnologia da ressonância magnética funcional, concluíram que o cérebro de alguns indivíduos responde de forma diferente da de uma pessoa normal quando levado a fazer julgamentos morais, que envolvem emoções sociais, como arrependimento, culpa e compaixão.

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Diferentes das emoções primárias, como o medo, que dividimos com os animais, as sociais são mais sofisticadas, exclusivas dos humanos - têm a ver com nossa interação com os outros. Os resultados preliminares do estudo sugerem que os psicopatas têm muito pouca pena ou culpa, dois alicerces da capacidade de cooperação humana. Mas sentem desprezo e desejo de vingança. 'As imagens mostram que há pouca atividade nas estruturas cerebrais ligadas às emoções morais e às primárias e um aumento da atividade nos circuitos cognitivos. Ou seja: os psicopatas comunitários, assim como os clássicos, funcionam com muita razão e pouca emoção', traduz Oliveira.

LISTA DE SINTOMAS

Elaborada pelo canadense Robert Hare, ela é um instrumento importante de diagnóstico (seu uso isolado, no entanto, não basta para determinar se alguém é psicopata ou não):

Desembaraço/charme superficial
Sentimentos insuflados de importância pessoal
Busca por estimulação/sensibilidade à monotonia
Mentira patológica
Manipulação e chantagem
Ausência de remorso ou culpa
Emoções superficiais
Ausência de empatia com os outros
Estilo de vida parasita
Controles comportamentais precários
Promiscuidade sexual
Problemas graves de comportamento na infância
Ausência de objetivos de longo prazo
Impulsividade
Irresponsabilidade
Incapacidade de se responsabilizar por suas ações
Casamentos/relacionamentos de curta duração
Delinquência juvenil
Violação de condicional
Versatilidade criminal

É claro que todo mundo tem seu dia de fúria e um pecado para esconder - uma trapaça no jogo, uma mentira, uma baixaria no trânsito. Estar agressivo e violento é muito diferente de ser agressivo e violento ou, em última análise, um psicopata. A doença se caracteriza pela repetição, desde a infância ou há pelo menos dois anos, de atos antissociais que lesam os outros, sem remorso nem culpa. 'O psicopata assassino é frio e calculista, mas o comunitário é afável, agradável, sedutor, carinhoso. A gente consegue reconhecê-lo quando algo dá errado e ele fica agressivo', destaca Oliveira.

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Essa ampliação do conceito de psicopatia para além dos muros das prisões leva a uma conta pouco animadora. Se a doença, em sua forma mais crônica, afeta 3% da população masculina e cerca de 1% da feminina (mais que o diabetes, com 1% a 2%), os psicopatas comunitários devem ser bem mais numerosos. Além disso, eles passam muito bem por cidadãos comuns com pequenos problemas de conduta ou falhas de caráter. Principalmente em sociedades mais permissivas, como a do Brasil, que, não por acaso, durante muito tempo foi a terra do jeitinho.

'Não acredito que existam mais psicopatas comunitários aqui do que nos Estados Unidos, mas, num sistema que reprime a violência, eles vão ter menos oportunidades', pondera Oliveira. 'Eles fazem a festa justamente onde a estrutura social não é muito definida: em mudanças de regime, como paladinos da justiça; nas igrejas, como sedutores líderes religiosos; na política, nos ambientes ligados ao misticismo.'

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MAPEAMENTO DAS EMOÇÕES

Indivíduos normais e psicopatas comunitários foram submetidos ao teste Bateria de Emoções Morais (BEM) enquanto eram colhidas imagens de seu cérebro por meio de
ressonância magnética funcional.
Quando uma pessoa normal (à esq.) faz julgamentos morais, ativam-se as áreas pré-frontais (laranja e roxo), responsáveis pelos aspectos cognitivos - frios e racionais - do julgamento. Também são ativados o hipotálamo (azul), relacionado às emoções básicas, como raiva e medo, e o lobo temporal anterior (vermelho), ligado às emoções morais, tipicamente humanas. Resultados preliminares mostram que, no cérebro do psicopata (à dir.), diminui sensivelmente a ativação das áreas relacionadas tanto às emoções primárias (azul) quanto às morais (vermelho) e aumenta a atividade nas áreas pré-frontais (laranja e roxo), ligadas aos circuitos cognitivos, de razão pura.

O estudo de Oliveira e Moll será publicado no fim do ano, e os pesquisadores pensam em criar uma cartilha para ajudar o cidadão comum a reconhecer e se proteger dos até então incógnitos psicopatas comunitários. 'A defesa é negar empréstimos, não deixar que ocupem posições de decisão, não os mandar fazer pagamentos nem lhes confiar objetos de valor', diz Oliveira. Em termos científicos, outro desdobramento seria um teste diagnóstico para detectar precocemente indivíduos com potencial agressivo e violento.

'Pessoas com tendências antissociais poderiam ser identificadas e até reabilitadas antes de causar danos', afirma Moll. Mais controvérsia à vista: conhecer os circuitos danificados no cérebro do potencial psicopata permitiria fazer intervenções cirúrgicas e desenvolver drogas que estimulassem regiões específicas, alterando seu comportamento. 'Isso é muito delicado, e cabe à sociedade discutir que uso será dado a essas novas ferramentas', pondera o neurorradiologista.

O conhecimento é bom, mas o cenário que ele desenha lembra momentos pouco inspirados da História, como os primórdios da Psiquiatria, com a onda de lobotomias e a política de higienização dos nazistas. Lembra também Minority Report, livro de ficção científica de Philip K. Dick, transformado em filme por Steven Spielberg, em que se prendia o assassino antes de ele cometer o delito. 'Vai haver uma grande polêmica, uma discussão ideológica com argumentos de nazismo para baixo', reconhece Oliveira. 'Mas a possibilidade de identificar precocemente um psicopata é reconfortante para o cidadão normal, que sai para trabalhar e quer voltar vivo para casa.'

''A família adoece''

O depoimento do pai de uma psicopata comunitária:
''Tenho três filhas, e todas foram criadas nos melhores colégios do Rio de Janeiro, com amparo religioso. A do meio ia muito bem até entrar na faculdade. Largou um curso, começou outro, que largou também. Saía à noite todo dia, bebia, levava multas de trânsito, punha os pontos na carteira de todo o mundo. Também não queria saber de trabalhar. Inventou de morar num sítio, e eu achei que era um momento de crescimento pessoal dela, de independência. Mas depois tive de resgatá-la, pois só participava de raves e se drogava. Voltou a morar aqui, vivia de biscate e de baladas. Acordava todo dia às 3 da tarde. Uma vez, trouxe dois pivetes de rua para casa. Colocou em risco a vida de todos nós. Eu resolvi tirar o carro dela e aí ela ficou agressiva comigo. Ela sempre se irrita quando eu a contrario. Procuramos os Narcóticos Anônimos, psicoterapia, tudo, para ver onde tínhamos errado. Fomos vendo que independia de nós. Nossas outras filhas têm vida normal. A do meio se acha normal, diz que a sociedade é que é complicada. Agora estamos tentando outro tratamento. Fiquei assustado com o diagnóstico de psicopata comunitária, porque ela é muito doce e cativante. Mas aceito qualquer coisa que possa reverter esse quadro.''

TIPOS DE COMPORTAMENTO AGRESSIVO-VIOLENTO

Todo o mundo sente raiva, é agressivo ou perde o controle de vez em quando. O que diferencia a pessoa normal da psicopata são a intensidade e a frequência das crises, a desproporção entre o motivo da explosão e a violência da reação. Os comportamentos ao lado são síndromes (conjuntos de sintomas) que podem ter diversas causas - de uma simples noite maldormida a depressão. Mas, nos casos extremos, indicam psicopatia.

1) Síndrome de descontrole episódico: o sujeito tem pavio curto, rompantes que podem ser motivados por coisas tão irrelevantes quanto uma colher que cai no chão. Durante o surto, ele perde o controle, grita, ofende, vai na ferida, é mordaz. É capaz de agressão física e até de matar alguém. Depois da crise fica cansado, envergonhado, moralmente arrasado. No caso das mulheres, há um subtipo, o descontrole verbal episódico: elas falam sem parar, de forma agressiva. Também chamado de distúrbio exclusivo intermitente, antes era conhecido como embriaguez patológica, porque a crise pode ser deflagrada por pequenas doses de álcool. Há tratamento com inibidores de recaptação de serotonina (drogas da família do Prozac).
Exemplos: Renato Mendes, vivido por Fábio Assunção, em Celebridade; pitboys, que não necessariamente procuram briga, mas reagem violentamente por muito pouco.

2) Indivíduo continuamente agressivo: encrenqueiro, tende a reagir com agressão a tudo. É um perigo no trânsito, porque procura confusão, provoca, pode até matar. Esse tipo e o descontrolado episódico são passionais: seus atos são profundamente carregados de ódio e ira.
Exemplos: skinheads (foto) e integrantes de gangues, que saem procurando briga.



3) Agressividade fria: é o comportamento do psicopata clássico, capaz de cometer atrocidades sem nenhum medo, culpa nem remorso. Calculista, premedita seus crimes. É sádico, tem prazer na dor do outro.
Exemplos: Fernandinho Beira-Mar, Elias Maluco (foto), Nero, Calígula, Bonnie & Clyde.




4) Irritação defensiva: ocorre quando a pessoa tem dor ou dorme mal, por exemplo, e responde de forma ríspida a qualquer estímulo. É o padrão mais freqüente de agressão. Pode ser sintomático de uma distimia, uma depressão contínua e discreta. Chamada também síndrome do mau humor crônico. Tratável com antidepressivos.
Exemplo: o Zangado da Branca de Neve. (Fonte: http://revistaepoca.globo.com)
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