Ultimas

A realidade dos sobreviventes do desastre de Chernobyl

“Aconteceu na noite de uma sexta-feira. Pela manhã ninguém suspeitava de nada, mandei meu filho para a escola e meu marido foi até a barbearia. Preparava o almoço quando meu marido voltou e me disse que havia uma espécie de incêndio na planta nuclear, e que estavam dizendo para não desligarem o rádio. Mesmo depois de tantos anos consigo ver o resplandor brilhante de cor carmesim. Não era um fogo comum, mais parecia que o reator brilhava. Era bonito. Nunca havia visto algo assim nos filmes.

Durante a tarde toda a cidade foi para suas varandas, e quem não tinha varanda, foi para a de um amigo. Estávamos no nono andar e tínhamos um vista linda. As pessoas chamavam seus filhos e diziam: “Olhem! Lembre-se disso!”. E estas pessoas trabalhavam no reator. Engenheiros, trabalhadores e instrutores. As pessoas vinham de todos os arredores da cidade para não perder o espetáculo. Nós não sabíamos que a morte podia ser tão bonita.

Não dormi toda a noite, e escutava os vizinhos empacotando suas coisas no piso de cima. Tomei um remédio para a dor de cabeça. De manhã me despertei e me invadiu um sentimento peculiar, sabia que algo não estava bem, que algo havia mudado para sempre. Às 8 horas da manhã, já haviam militares nas ruas com máscaras de proteção. A presença deles, em vez de incrementar nosso temor, nos aliviou. Naquela altura não sabíamos que um átomo pequenino podia matar, que o homem era impotente perante as leis da física.

Na rádio começaram os alertas de evacuação. Nos tirariam da cidade por três dias, enquanto limpavam os arredores e revisavam se tudo estava em ordem. Inclusive disseram para as crianças levarem seus cadernos. Meu marido guardou nosso documento e as fotos de nosso casamento em sua pasta. Só o que levei comigo foi um casaco, no caso do clima piorar.

Pela primeira vez senti que éramos “Chernobitas”, que éramos gente segregada. O caminhão que nos levou embora da cidade parou em um vilarejo onde as pessoas dormiam como podiam. Uma senhora nos ofereceu sua casa, mas seus amigos a impediram, dizendo que nós estávamos contaminados. Tempos depois nos estabelecemos em Mogilev, e nosso filho entrou na escola. Estava no quarto ano, e era o único de Chernobyl da classe. Voltou chorando do primeiro dia de aula dizendo que tinham feito ele sentar ao lado de uma garota que não queria estar perto dele, porque ele era radioativo. Os outros meninos começaram a chamá-lo de “Brilhante”. Sua infância terminou muito cedo.

Testemunho de Nadezhda Petrovna Vygovskaya, evacuada da cidade de Prípiat.
Menino que sofre de hidrocefalia. / Paul Fusco

Durante os anos de 1999 e 2000, o fotógrafo Paul Fusco visitou Ucrânia, Bielorrússia e seus arredores, buscando encontrar pessoas que tivessem sobrevivido ao desastre de Chernobyl. Homens, mulheres, crianças e idosos que a pesar de ter abandonado a região onde viviam, no conseguiram escapar dos efeitos da radiação. Os problemas vieram com o passar do tempo. A exposição das pessoas a altos níveis de radiação gerou grandes problemas de sáude, desde câncer e deformações até problemas mentais e congênitos. Estima-se que pelo menos 125 mil pessoas tenham morrido na Ucrânia devido a problemas adquiridos depois da explosão, e pelo menos 2 milhões foram expostos à radiação.


Depois de 29 anos da tragédia nuclear, a zona continua como uma cidade fantasma. Os únicos visitantes são animais que sobreviveram e sofreram mutações, ou algum repórter louco que busca retratar os restos de Chernobyl.


Paul Fusco
Paul Fusco
Paul Fusco

As fotos podem ser chocantes para algumas pessoas, mas a verdade é que são retratos sensíveis de uma geração que demonstrou o alcance destrutivo da energia atômica.

Os efeitos da radiação são simplesmente devastadores. / Paul FuscoOs efeitos da radiação são simplesmente devastadores


Paul Fusco
Paul Fusco
Paul Fusco
Via: Mistérios do Mundo
Postar um comentário
 
Copyright © 2011 - 2014 O Controle da Mente - A Ciência em Ação!