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Bullying continua acontecendo nas escolas do Brasil!

 
No ambiente supostamente protegido da escola, multiplicam-se casos estarrecedores de assédio praticados por e contra crianças e adolescentes. Especialistas analisam o fenômeno.




(Perseguições, xingamentos, ameaças, chantagens - essas e outras formas de violência fazem parte do fenômeno do bullying, que vem tomando proporções epidêmicas em nosso país)
O comportamento agressivo pode causar depressão, ansiedade, pânico e fobias diversas. Todos esses problemas provocam queda de rendimento. “Por conta do próprio cérebro, que está com uma disfunção de neurotransmissores, o estudante fica com uma dificuldade cognitiva maior”, explica. Em um paciente que já tem problemas de aprendizagem, as consequências podem ser ainda mais severas.

Ataque virtual, dor real

 
Pesquisa da Intel Security, realizada no ano passado com crianças e adolescentes de idades entre 8 e 16 anos, concluiu que 66% delas já haviam presenciado casos de agressão em mídias sociais. Cerca de 21% afirmaram que já sofreram cyberbullying; 24% já o praticaram; 14% das crianças admitiram falar mal de uma pessoa para outra; 7% marcaram pessoas em fotos vexatórias; 3% ameaçaram alguém; 3% assumiram zombar da sexualidade de outra pessoa.

“Todo mundo já recebeu um apelido do qual não gostou na escola”, argumenta aqueles que não entendem bem o que é o bullying e as consequências dele na vida de tantos jovens. É uma forma de minimizar ofensas graves que causam prejuízos profundos às vítimas. O bullying é a agressão física, verbal ou comportamental sem motivação, repetitiva e intencional contra uma pessoa a fim de intimidá-la e humilhá-la. Há ainda quem diga que é só uma brincadeira de criança com a qual a vítima deve saber lidar.




Esse tipo de discurso faz com que as vítimas se sintam responsáveis pelo próprio sofrimento, já que não conseguem reagir ou “levar na esportiva”. O resultado são crianças e adolescentes que guardam o sofrimento para si. As pesquisas sobre bullying apontam que, na maioria das vezes, a situação opressora sequer chega ao conhecimento de pais e professores. É um sofrimento silencioso.

No ano passado, a então presidente Dilma Rousseff sancionou a Lei nº 13.185/2015, que obriga escolas a identificarem e combaterem os casos de agressão entre os alunos. Mesmo assim, em agosto deste ano, o IBGE divulgou a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (Pense), que identificou que as ocorrências de bullying aumentaram em relação a 2010. O estudo concluiu que os maiores alvos de provocação são características físicas: primeiro do corpo, depois do rosto. Estar acima do peso, usar óculos, ter espinhas — qualquer coisa vira motivo de chacota. Atualmente, com a lei de combate ao bullying, as escolas se esforçam no sentido de conversar com os alunos, mas tudo indica que isso ainda não evita a prática.


Alguns veem o aumento dos casos de forma positiva, como um sinal de que as situações estão sendo detectadas. Os especialistas, porém, são unânimes em destacar que os números ainda estão subestimados, sobretudo os referentes ao ensino particular. Para a neurocientista e educadora Katia Chedid, as escolas estão, cada dia mais, reproduzindo a competitividade do mundo real e premiando os melhores de acordo com padrões estabelecidos, o que deixa os estudantes mais agressivos. “O humano sobreviveu porque aprendeu a trabalhar junto e ter empatia. Essa onda de competitividade, de ser o umbigo do mundo, vai acabar com a gente. Quando a escola trabalha só com resultado, não favorece o trabalho colaborativo, as diferenças de aptidões. Depois, reclamam de bullying, de alunos que não se encaixam, que são excluídos”, aponta.

O advogado Alexandre Saldanha, especialista em bullying e mobbing (assédio moral em ambiente de trabalho), recorre a uma ideia do filósofo francês Michel Foucault: “Quanto mais competitiva uma sociedade, mais violenta ela é”. O advogado critica a legislação vigente sobre o tema. “A lei é ineficaz porque só tem caráter regulatório, não prevê nenhuma pena aos agressores. Ela equipara o bullying a todo tipo de crime, como assédio sexual, moral, destruição de patrimônio público, mas depois diz que o apenamento deve ser evitado. As leis só modificam o caráter quando têm uma sanção”, argumenta. Além disso, ele ressalta o fato de a norma não prever nenhum tipo de fiscalização nas escolas. Ele próprio foi vítima desse tipo de violência quando estudante, hoje milita na causa.

O que é bullying?
  • Comportamentos agressivos no âmbito escolar, praticados tanto por meninos quanto por meninas.
Formas de bullying
  • Verbal: insultar, ofender, falar mal, colocar apelidos pejorativos, “zoar”.
  • Física e material: bater, empurrar, beliscar, roubar, furtar ou destruir pertences da vítima.
  • Psicológica e moral: humilhar, excluir, discriminar, chantagear, intimidar, difamar.
  • Sexual: abusar, violentar, assediar, insinuar.
  • Virtual ou cyberbullying: bullying utilizado por meio de ferramentas tecnológicas: celulares, filmadoras, internet etc.
Diálogo aberto

 
Recentemente, a atriz global Priscila Fantin se abriu e contou que o filho, Romeo, de 5 anos, estava sofrendo bullying na escola. Por ter cabelos longos, perguntam se ele é menina. Priscila resolveu conversar com ele para saber como se sentia em relação a isso. Ele disse que ficava chateado. Ela explicou que ele poderia ficar à vontade para fazer o que quisesse. Ele preferiu mantê-lo comprido e disse: “É, mãe, são pessoas bobas. Não quero cortar o cabelo”.

Essa conversa com os filhos é muito importante, tanto para identificar se ele é vítima quanto para saber se é agressor. “Os pais, hoje em dia, conversam pouco, não têm nem tempo de perceber que há alguma coisa errada. A criança tem medo de conversar, medo de ser repreendida”, observa. É nessas oportunidades que se pode abordar temas como respeito às diferenças.


O pior cenário


É comum as vítimas de bullying entrarem em depressão. Não são raros os casos de suicídio. Em 19 de outubro deste ano, Bethany Thompson, uma menina de 11 anos que sobreviveu a um câncer no cérebro diagnosticado aos 3, suicidou-se. Ela encontrou uma arma mantida em casa por seus pais e atirou em si mesma. Ela se curou da doença em 2008. Desde então, passou a sofrer humilhações na escola, pois o tumor a deixou com deformações no rosto e danos no sistema nervoso.

Em agosto, Daniel Fitzpatrick (foto), 13 anos, se matou. Ele estudava na escola Holy Angels Catholic Academy, EUA, e era constantemente incomodado por seus colegas. Embora tenha se queixado na instituição, nenhuma atitude foi tomada. Após a perda, seus pais decidiram divulgar em uma página do Facebook a carta de suicídio do menino para alertar outras famílias sobre o problema. Nela, Daniel conta das brigas e de como apenas uma das funcionárias da escola deu atenção ao problema, mas não foi suficiente. “Mas eles (os agressores) continuaram, eu desisti e as professoras também não faziam nada (...). Quem acabava tendo problemas era eu”, escreveu.


O pai também fez um vídeo de 18 minutos em que se abre. “A história do meu filho está aí para o mundo todo ver por quanta dor ele passou”, disse. “Nenhum pai deveria ter que enterrar seu filho. Nenhuma criança deveria passar pelo que o meu filho passou.” Ele condenou tanto os garotos que faziam deliberadamente bullying (todos citados na carta do menino) quanto a escola católica que se recusava a ajudá-lo. 
Fonte: Uai.com
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