Você já teve uma leve vontadezinha de espirrar, mas não conseguiu, e alguém lhe falou para olhar para o sol? Feito isso, o mais provável é que você tenha conseguido espirrar imediatamente. Pois, tem pessoas que até mesmo sem vontade, ao olharem para a luz solar, elas têm acessos de espirros por algum tempo.  

Essas pessoas fazem parte de 20 a 30% da população mundial que sofrem desse fenômeno não muito compreendido, conhecido como “espirro de reflexo fótico” ou “espirro solar”. Mas, como isso funciona? Apenas nas últimas décadas os cientistas começaram a entender essa característica bastante estranha.

Dúvida histórica

Não é de hoje que as pessoas têm dúvidas sobre esse fenômeno. O grande filósofo grego Aristóteles, em 350 a.C, fez a pergunta em seu primeiro volume de O Livro de Problemas: "Por que o calor do sol provoca espirros?". Esta foi a primeira evidência registrada espirro de reflexo fótico.

Aristóteles teorizou que era o calor do sol que causava umidade pelo suor dentro do nariz. A fim de se livrar dessa umidade, a pessoa tinha que espirrar.

No século 17, o grande cientista Francis Bacon abordou a questão dos espirros solares. Ele provou que a teoria de Aristóteles estava errada, encarando o sol com os olhos fechados, o que não provocou o espirro normal. Ele determinou que olhar para o sol fazia os olhos lacrimejarem, com as lágrimas entrando no nariz, o que causava o espirro.

Mais tarde, os cientistas determinaram que essa teoria de Bacon também estava incorreta, simplesmente porque o espirro acontece rápido demais após a exposição à luz solar. Olhos lacrimejantes levam mais tempo para se desenvolver.

Mais estudos

Finalmente, em 1964, um estudo começou a esclarecer um pouco mais sobre o que estava acontecendo, provando que espirros solares eram, na verdade, uma característica genética. A pesquisa também mostrou que a característica era autossômica dominante, ou seja, apenas um gene tem de estar presente para a característica ser expressa.

Se um dos pais tem o espirro de reflexo fótico, então há uma chance de 50% de que seus filhos vão tê-lo também.

Em 1978, a Dra. Roberta Pagon e seus colegas foram mais longe nas descobertas. Ao assistir a uma conferência sobre defeitos de nascença, o assunto voltou-se para o espirro solar. Depois de uma rápida pesquisa, quatro em cada dez médicos na discussão explicaram que eles e suas famílias eram propensos a esse tipo de espirro.

Além disso, eles falaram que variava o número de espirros, que era diferente em cada família. A doutora explicou um exemplo: “uma pessoa me disse que era comum que as pessoas de sua família espirrassem cinco vezes, na minha família eram três vezes e outra pessoa disse que na dela era apenas uma vez por episódio”.

Assim, com esta nova informação, os médicos investigaram mais profundamente. Juntos, eles escreveram um artigo e passaram a chamar a disfunção de: Síndrome do Acesso Autossômico Dominante Helio-oftálmica ou "ACHOO" (fazendo uma analogia à maneira popular como é chamado o nosso “atchim” em inglês).

Descobertas mais recentes

Já em 2010, um estudo feito pelo professor da Universidade de Zurique, Nicholas Langer, tentou descobrir porque o corpo reage dessa forma com a luz do sol, examinando as diferentes reações do cérebro de quem tem o espirro solar e daqueles que não têm.

Ele avaliou vinte voluntários, sendo que metade tinha a condição, com uma máquina de Eletroencefalograma e os expuseram a uma luz brilhante para medir as respostas neurais de seu cérebro. Os resultados, segundo Dr. Langer, mostraram que o espirro de reflexo fótico não é um reflexo clássico que ocorre apenas em um nível da medula espinhal ou do tronco cerebral, pois parece envolver outras áreas corticais do cérebro.

Com isso, o pesquisador teceu duas teorias. A primeira era que o sistema visual no cérebro é simplesmente mais sensível em “espirradores” solares. A superestimulação da luz provoca uma resposta de pânico de outras partes do cérebro, incluindo o sistema somatossensorial, que controla o espirro.

A outra teoria é um pouco mais complicada e, na verdade, torna as noções de Bacon e Aristóteles não tão equivocadas, pelo menos em parte.

Nesta teoria, um espirro é acionado porque o nariz esta irritado, mas ao contrário do que Aristóteles e Bacon haviam proposto, a umidade não tem nada a ver com isso. O nervo trigêmeo, responsável por certa sensibilidade facial e controle motor, sente essa irritação. Mas, o que causa a irritação?

O trigêmeo está perto do nervo óptico, que envia as informações visuais da retina para o cérebro. Dessa forma, quando uma súbita explosão de luz enche a retina e o nervo óptico envia um sinal para o cérebro para fechar a pupila, o sinal poderia, em teoria, ser detectado pelo nervo trigêmeo e ser confundido pelo cérebro como o de o nariz estar irritado. Assim, os indivíduos espirram.

Seja qual for o caso, da próxima vez que você sair de um lugar escuro para a luz brilhante do sol e sua síndrome do “atchim” atacar, você já sabe de quem é a culpa. Dos seus pais. Bem, do sol também, mas principalmente dos genes de um de seus progenitores.